Quando as condições ideais não existem, talvez a pergunta certa não seja “o que me falta?”, mas “como eu começo?”
Provavelmente nós não nos conhecemos, mas eu sei uma coisa sobre você.
Em algum momento da sua vida, você já desejou alguma coisa que não podia ter. Um brinquedo. Uma roupa. Uma viagem. Um relacionamento. 😋
Talvez você tenha pedido. Insistido. Esperado.
E, por alguma razão, a resposta foi não.
Todo mundo já passou por isso. Principalmente na infância e na adolescência, quando dependemos dos adultos para quase tudo e descobrimos, aos poucos, que querer alguma coisa não significa que vamos conseguir tê-la.
Mas o ponto aqui não é a nossa história triste.
É o que fazemos depois.
Porque, em algum momento, você percebe que continuar esperando talvez não mude muita coisa. E então aparece uma pergunta diferente:
“Tá. E se eu quiser fazer alguma coisa a respeito?”
É esse momento que eu chamo de Ponto Zero.
Não é quando você consegue. Não é quando tudo dá certo.
É o instante em que você olha para a frente, aceita que as condições não são exatamente aquelas que gostaria de ter e pensa:
“Foda-se. Como eu faço pra começar?”
Mas, para isso não virar mais um daqueles discursos de coach, deixe-me contar o que aconteceu comigo na década de 80.
Índice
Eu queria ser um herói
Quase todo mundo sonha com aquilo que assiste na televisão.
Eu assistia a filmes de Bruce Lee, Jackie Chan, David Carradine e Chuck Norris. Nessa ordem.
E eu adorava aquilo.
Não era apenas a luta. Eu me identificava com aquele estilo de vida. Com os personagens, com as habilidades, com a ideia de saber lutar.
Eu queria muito fazer aquilo.
O problema é que eu era uma criança.
E crianças, como sabemos, têm uma pequena desvantagem quando decidem conquistar alguma coisa: normalmente não são elas que mandam.
O mundo em que eu cresci
Meu pai foi músico a vida toda. Mas também foi empresário, radialista e um autodidata daqueles que aprendem porque precisam aprender.
Ele se tornou músico sozinho aos 13 anos.
Naquela época, a carreira de músico tinha uma trajetória diferente. Os shows e apresentações aconteciam na maior parte em circos e parques de diversões — e esses lugares, obviamente, não tinham endereço fixo.
Então meu pai resolveu adquirir o próprio “palco”.
Era como ter sua própria galinha dos ovos de ouro. Só que essa galinha precisava viajar.
Estamos falando da década de 80. Pré-internet. Pré-Google. Pré-YouTube.
E eu cresci nesse ambiente.
Nem toda estrada tinha asfalto. Havia muito chão batido, poeira e barulho.
As pessoas se divertiam com pouco.
Enquanto as crianças corriam pelos brinquedos, os adultos se espremiam em volta de um cercado para apostar em algum jogo de argolas ou tiro ao alvo.
Minha mãe fazia algodão-doce e maçã do amor para vender. Eu era o vendedor.
Com dez anos, cheguei a vender 1.500 algodões-doces em um único fim de semana.
Nunca vi um centavo daquela grana. Mas não culpo minha mãe. Éramos uma família trabalhando junta.
E trabalhar em um parque de diversões exigia um pouco de tudo.
Mecânica. Elétrica. Pintura. Manutenção. Vendas.
E improvisação. Muita improvisação.
Uma das coisas que mais me impressionava era a maneira como a propaganda funcionava.
Hoje estamos acostumados a anúncios segmentados, redes sociais, algoritmos e todo aquele arsenal tecnológico.
Meu pai não tinha nada disso.
Mas era um mestre em propaganda.
Antes mesmo de chegar a uma cidade, ele distribuía ingressos de cortesia em escolas e órgãos públicos.
Além de se antecipar a possíveis dificuldades locais, já começava a criar uma expectativa.
Quando chegávamos na cidade, era comum as crianças correrem para ver o “evento” que estava chegando. Um expectativa já havia sido criada.
O problema de estar sempre indo embora
Crescer em uma vida nômade tinha suas vantagens.
Eu conheci lugares diferentes, pessoas diferentes, costumes diferentes e, eventualmente, perigos diferentes. Mas havia um preço.
Era difícil criar raízes, fazer amigos, criar uma rotina, encontrar apoio.
Eu nunca tive uma volta às aulas em que pudesse simplesmente reencontrar os amigos do ano anterior. Eu era, muitas vezes, o estranho da turma. E aquela sensação de estar sempre meio sozinho acabou me acompanhando durante muito tempo.
Se eu arrumasse uma confusão, provavelmente teria que lidar com ela sozinho. E coisas aparentemente simples se tornavam complicadas.
Frequentar uma academia, por exemplo. Jogar em um time. Participar de qualquer atividade que dependesse de rotina e frequência.
Quando você está sempre indo embora, a contingência deixa de ser uma exceção. Ela vira um instinto. E a solidão, em alguns momentos, acaba virando refúgio.
Foi nesse ambiente que eu descobri uma coisa que só fui entender muito tempo depois:
Quando você não pode contar com as condições ideais, começa a prestar mais atenção nas condições que existem.
Quando a academia não era uma opção
Não era fácil para uma criança realizar um sonho sem os recursos necessários.
No meu caso, o estilo de vida era o primeiro problema.
Meus pais eram o segundo.
Não porque faltasse amor ou cuidado. Mas porque eles eram bastante preconceituosos em relação à prática de esportes de luta.
Para eles, aquilo não tinha futuro. E, de certa maneira, eu até entendia o raciocínio. Mas como eu provaria que estavam errados?
Eu estava preso em um corpo de criança e não era exatamente o dono do meu próprio nariz. Academia estava fora de cogitação. Então fiz a única coisa que eu podia fazer.
Estudei.
Não do jeito tradicional. Eu comecei a procurar informação. E aí entrou uma das coisas que eu tinha aprendido observando os adultos à minha volta:
Qualquer coisa pode virar moeda de troca.
Foi assim que eu fiquei conhecido na escola, como “o guri que trocava ingressos por livros e revistas”.
Eu queria ler tudo o que pudesse sobre o mundo das lutas. Queria conhecer meus heróis. Queria entender como eles treinavam, como lutavam, de onde vinham aquelas técnicas.
E eu tinha uma coisa que interessava às outras crianças. Ingressos.
Eu queria aprender a lutar. Acabei aprendendo outra coisa primeiro: a procurar uma saída quando a entrada estava fechada.
Para os meus pais, pelo menos, havia uma vantagem nisso tudo. Era bom ver o filho lendo qualquer coisa.
Então eu lia. E trocava. E aprendia.
Não era exatamente o plano que eu tinha imaginado quando comecei a sonhar com Bruce Lee. Mas era um começo.
Eu ainda não sabia, mas aquele menino já estava aprendendo uma coisa que levaria para o resto da vida:
Quando não dá para chegar pela porta da frente, é preciso descobrir por onde dá para entrar.
E é justamente aí que está o ponto.
O ponto zero
Essa história não termina aqui.
Na verdade, ela ainda tem muita coisa para contar — e vai aparecer nos próximos posts deste blog.
Anos depois, eu finalmente consegui frequentar não uma, mas várias academias. Conquistei títulos e graduações.
Aquela não seria a última vez que eu precisaria aprender alguma coisa sem ter exatamente as condições para isso. Na verdade, olhando para trás, talvez tenha sido apenas a primeira.
Mas isso não é o mais importante desta história.
Porque seria muito fácil olhar para trás e contar tudo como uma grande história de superação:
“Eu tinha dificuldades, persisti, venci e realizei meu sonho.”
Bonito. Só que não foi exatamente assim.
O que aconteceu foi muito mais simples.
Eu queria alguma coisa.
Não tinha as condições necessárias para conseguir.
Então precisei descobrir o que estava ao meu alcance.
Foi aí que comecei. E, depois de começar, outras possibilidades apareceram.
Talvez o que mais interessa sobre aquela época, é que…
Não foi persistência.
Não foi “nunca desistir”.
Não foi alguma fórmula secreta de sucesso.
Foi necessidade e adaptação.
Foi aprender a usar o que eu tinha para conseguir o que era possível naquele momento. Isso é muito diferente de simplesmente insistir.
Às vezes você não precisa encontrar a solução. Precisa encontrar uma maneira de começar.
E provavelmente por isso eu reconheça tanto esse menino até hoje.
Mudaram os problemas, mudaram as ferramentas, mudaram os lugares. Mas a pergunta continua quase a mesma: ‘Eu não tenho o que preciso. Então, o que eu consigo fazer com o que tenho?
Depois que a chama acende
Eu já desejei muitas coisas na vida, e também tive a minha cota de frustrações.
Algumas consegui.
Outras não.
Algumas demoraram anos.
Outras simplesmente deixaram de fazer sentido.
Mas existe uma coisa que aprendi observando aquela criança que trocava ingressos por livros:
Às vezes você só precisa acender uma chama.
O problema é que manter a chama acesa é muito mais difícil do que acendê-la.
E talvez seja por isso que o começo seja tão importante.
Porque o começo não precisa resolver a sua vida. Ele só precisa tirar você do lugar.
Um passo depois do outro.
Um dia de cada vez.
Não necessariamente para conseguir aquilo que você quer. Mas para descobrir o que é possível fazer a partir de onde você está. 🤔
Talvez O Desenrolado tenha começado ali, muito antes de existir esse nome: na descoberta de que você não precisa ter tudo para começar.
Você só precisa descobrir o que é possível fazer com aquilo que tem.
E agora, o que você tem nas mãos?
Talvez você esteja diante de alguma coisa que parece fora do seu alcance. Talvez falte dinheiro, tempo, conhecimento, experiência ou apoio. Talvez você simplesmente não saiba por onde começar.
Tudo bem.
O Ponto Zero não exige que você tenha a resposta. Exige apenas que você pare de esperar pelas condições perfeitas. Porque talvez elas nunca apareçam.
O ponto zero é o agora.
É quando você olha para a frente, sem se importar com as condições ou cenário à sua volta, e simplesmente pergunta: “Como eu faço pra começar?”
